Eu sinto que alguém têm de fazer a apologia da Pepa, e ninguém se chega a frente, por isso vou eu tratar disso.
Não que eu ache que a Pepa não se possa defender sozinha, ou precise de alguém para fazê-lo por ela. A Pêpa não é uma dessas coquetes enfezadas que permitem que reduzam o nome Filipa a diminutivos condescendentes como Pipa, Pipinha, ou Pimpinha. Também não é tão conformada e mundana ao ponto de aceitar o nome que os pais lhe deram tal e qual como é. Faltou-lhe talvez o arrojo para enfrentar o mundo com um nome como Fifi.
A Pêpa, como podemos ver no infame reclame da Samsung, é uma self made woman. Um bocado irritante? É. Têm péssima dicção? De facto. Um bocado afetada? Um bocado é favor. Tem desejos desadequados à atual conjuntura económica e, como tal, ofensivos para o comum mortal? É possível. É difícil ver o dito vídeo na sua totalidade sem ficar com vontade de lhe aviar uma bolacha? Tarefa hercúlea, sem dúvida.
Mas tenho três problemas com esta consternação que me estão a dar urticária, ainda por cima nas costas onde eu não consigo coçar, e por isso vou desabafar os meus sentimentos aqui antes que isto se espalhe.
Antes de mais, o ponto essencial a ver aqui é este: este vídeo faz parte de uma série de vídeos idealizados pelos masterminds do departamento criativo da Samsung como parte de uma campanha de fim de ano. Foram entrevistados 5 bloggers de moda, que responderam à questão “qual é o seu desejo para 2013?” enquanto eram filmados a brincar com gadgets da marca. A ideia a reforçar aqui é: Bloggers de moda. Profissionais cujo trabalho é analisar, investigar, admirar e criticar moda. Perguntam qual é o seu sonho e admiram-se que queira uma mala de marca? Havia de querer o quê? Um creme para as hemorroidas?
Existe a critica de que o discurso da Pêpinha, desculpe, da Pêpa Xavier, é oco, fútil e revelador de um certo deficit de Q.I. Desde quando é que este país que eleva a Casa dos Segredos a programa rei de audiências fica escandalizado por ver gente estúpida? Desculpem, claro que não é um problema nacional. Lembro-me de ver a Paris Hilton dizer que para suceder no showbizness e no mundo dos negócios ela faz-se de mais parva do que é, faz o papel de tontinha e loira burra, e porquê? Porque é o que esperam dela. Porque fica mais giro ser tontinha e borderline atrasada mental, e mulheres inteligentes e articuladas são esquisitas, provavelmente esteréis, provavelmente lésbicas. E por isso mulheres que podiam ser espertas, e se calhar até são, acham que é mais glamoroso falar como se tivessem tido um AVC que lhes paralisou a boca. A culpa é vossa.
E com isto chegando ao ultimo ponto, e aquele que me irrita particularmente. Se a Pepa, ou qualquer outra mulher, tiver o seu emprego, trabalhar, receber um salário, pagar os seus impostos e no final disso tudo quiser comprar ‘ma mala Channel supé chique e clássica... it’s none of your fucking business!
Seria mais virtuoso se ela dissesse que queria muito ser mãe? (parece-se a mim que apesar de tudo a mala Channel sai mais barata que sustentar uma criança). Seria economicamente mais responsável dizer que o seu maior desejo era ficar enquadrada no escalão de IRS mais alto para poder contribuir com metade dos seus ganhos para a salvação do país? Seria mais aceitável para a sociedade que a Pepa dissesse que é uma pessoa muito simples e humilde, não quer bens materiais, o seu único desejo é que um homem faça dela uma mulher séria para poder ficar em casa a apanhar porrada e ter filhos, thank you very much?
Quem somos nós para validar ou criticar as ambições ou desejos de outra pessoa? Quem somos nós para levarmos a cabo uma campanha de bullying online, contra uma amante de moda que teve o descaramento de querer ter uma mala de marca? E vão lá ver bem se metade desses posts enfurecidos não foram partilhados através de Iphones, Ipads e quiça... Samsungs! Estamos em crise! Não vos chegava um Huawei ou um Motorola?
E deixo esta ideia: caso a Samsung tivesse feito um vídeo onde perguntavam a um jovem mecânico qual era o seu sonho, e este respondesse “Ter um Porsche!”, seria o rapaz sujeito ao mesmo nível de ridicularização?
Deixem a mulher sonhar com o que ela quiser, deixem as mulheres sonhar com o que elas quiserem.
Com uma amizade supé grande, sei lá,
Fifi
--
"When critics disagree, the artist is in accord with himself"
Oscar Wilde
11.1.13
15.3.11
Biutiful (or como fui mais uma vez enganada a ver um filme do Iñarritu)
Existem dois tipos de espectadores: os que adoram Iñarritu e os que desprezam do fundo do coração. Eu pertenço ao segundo grupo e, como tal, até assumo que não sou a critica mais imparcial deste filme. Se fazem parte do primeiro grupo de espectadores, aviso já, vão ficar muito chateados com o que eu vou dizer. Prossigam a leitura por vossa conta e risco.
Em Iñarritu não vejo mais do que um abuso desavergonhado de truques narrativos e cinematográficos que levam o espectador mais incauto a sentir-se comovido e afectado por algo real e na verdade não foi mais do que manipulado. Acontecia em Babel, acontece em Biutiful: um bombardeamento de angústias, desesperos e injustiças sociais esfregadas na cara do espectador da forma mais gráfica e escatológica possível. Quer fazer-nos sentir alguma coisa, qualquer coisa, reagir. Há formas de fazê-lo sem causar náusea, mas talvez esta seja a forma mais fácil. É este o truque de realizador de Iñarritu: o nojo.
Nos primeiros 10 minutos de filme somos sujeitos às seguintes torturas: uma coruja morta, um funeral de três criancinhas; o fantasma de uma criancinha, auto extracção de sangue, urina ensaguentada e a sugestão desse bicho papão da vida moderna: cancro. Ainda o filme não bem começou e já causou no espectador um tal mal-estar e angústia que este fica condicionado na sua perspectiva dos acontecimentos que se desenrolam (dolorosamente) ao longo do restante do filme.
Mas, independentemente do nojo ou deslumbramento que esta estética possa causar no espectador, esse não é sequer o principal problema de Biutiful. A preocupação de um filmmaker deve ser, antes de tudo o resto, saber: "O que é que eu quero contar?". Mas Iñarritu parece sofrer de um short attention span ou de um caso terminal de ADHD que torna os seus filmes desconcentrados e redundantes. Ainda disfarçava enquanto trabalhava com Guillermo Arriaga e dividia as milhentas historias que queria contar por narrativas em mosaico, mas em Biutiful (supostamente, uma narrativa linear) vê-se incapaz de se focar numa personagem, problema ou história.
Na verdade há tanta tralha enfiada à força num só filme que facilmente se conseguem distinguir os vários filmes que podiam ter saído daqui se o homem se conseguisse concentrar durante 5 minutos:
Mais haveria... não vou bater mais no ceguinho.. ou vá, no mexicano. Existe claro alguma coerência no que diz respeito às preocupações de Iñarritu: injustiças sociais, exploração, globalização, etc. São preocupações perfeitamente legitimas, mas realmente lamentável é a forma grotesca e moralizante como as aborda, a leveza com que as abandona por outra coisa qualquer, os jogos de causa-consequência, karma e castigo divino e o asco que envolve tudo isto. No fundo, acho que se pode tirar o realizador do México, mas não se tira o México do realizador.
Dito isto, Javier Bardem podia bem ter recebido aquele Óscar, nem que fosse como compensação pela dor de costas que deve ter sido acartar com este pastel completamente sozinho, com uma dignidade merecedora de aplauso.
Em Iñarritu não vejo mais do que um abuso desavergonhado de truques narrativos e cinematográficos que levam o espectador mais incauto a sentir-se comovido e afectado por algo real e na verdade não foi mais do que manipulado. Acontecia em Babel, acontece em Biutiful: um bombardeamento de angústias, desesperos e injustiças sociais esfregadas na cara do espectador da forma mais gráfica e escatológica possível. Quer fazer-nos sentir alguma coisa, qualquer coisa, reagir. Há formas de fazê-lo sem causar náusea, mas talvez esta seja a forma mais fácil. É este o truque de realizador de Iñarritu: o nojo.
Nos primeiros 10 minutos de filme somos sujeitos às seguintes torturas: uma coruja morta, um funeral de três criancinhas; o fantasma de uma criancinha, auto extracção de sangue, urina ensaguentada e a sugestão desse bicho papão da vida moderna: cancro. Ainda o filme não bem começou e já causou no espectador um tal mal-estar e angústia que este fica condicionado na sua perspectiva dos acontecimentos que se desenrolam (dolorosamente) ao longo do restante do filme.
Mas, independentemente do nojo ou deslumbramento que esta estética possa causar no espectador, esse não é sequer o principal problema de Biutiful. A preocupação de um filmmaker deve ser, antes de tudo o resto, saber: "O que é que eu quero contar?". Mas Iñarritu parece sofrer de um short attention span ou de um caso terminal de ADHD que torna os seus filmes desconcentrados e redundantes. Ainda disfarçava enquanto trabalhava com Guillermo Arriaga e dividia as milhentas historias que queria contar por narrativas em mosaico, mas em Biutiful (supostamente, uma narrativa linear) vê-se incapaz de se focar numa personagem, problema ou história.
Na verdade há tanta tralha enfiada à força num só filme que facilmente se conseguem distinguir os vários filmes que podiam ter saído daqui se o homem se conseguisse concentrar durante 5 minutos:
- Um médium ajuda lutuosos a lidar com a perda de entes queridos mas vê-se incapaz de lidar com a sua morte eminente.
- Uma família é desfeita pela doença bipolar da mãe que negligencia e agride filhos e trai o marido com o seu irmão.
- Um casal de Senegaleses ilegais em Barcelona que são separados pela extradição do marido que, explorado pelo sistema, se viu envolvido num negócio de tráfico de droga e de artigos contrafeitos.
- Um casal de homossexuais chineses gerem juntos uma operação de exploração de trabalhadores seus conterrâneos, e que culmina com um assassinato à la Castro/Seabra e um quilo de chineses gaseados numa cave.
- Dois irmãos têm de levantar as ossadas do pai que nunca conheceram e embarcam numa jornada de auto conhecimento e descoberta do seu passado.
- Um pai solteiro de duas crianças descobre que tem cancro e envolve-se numa série de negócios ilegais para ganhar dinheiro para que os seus filhos não fiquem sem nada após a sua morte.
Mais haveria... não vou bater mais no ceguinho.. ou vá, no mexicano. Existe claro alguma coerência no que diz respeito às preocupações de Iñarritu: injustiças sociais, exploração, globalização, etc. São preocupações perfeitamente legitimas, mas realmente lamentável é a forma grotesca e moralizante como as aborda, a leveza com que as abandona por outra coisa qualquer, os jogos de causa-consequência, karma e castigo divino e o asco que envolve tudo isto. No fundo, acho que se pode tirar o realizador do México, mas não se tira o México do realizador.
Dito isto, Javier Bardem podia bem ter recebido aquele Óscar, nem que fosse como compensação pela dor de costas que deve ter sido acartar com este pastel completamente sozinho, com uma dignidade merecedora de aplauso.
23.8.10
Pré-Inception
Por alguma razão a critica do Inception está a ser dolorosa de escrever e ando a protelar há um mês. Se calhar antes do texto propriamente dito, vou pedir ao Cillian Murphy para me ajudar a representar o meu sentimento geral pelo filme:
Obrigado Cillian, (continuo a gostar mais de te ver vestido de mulher).
Obrigado Cillian, (continuo a gostar mais de te ver vestido de mulher).
12.7.10
Alive and kickin'
Não me vou alongar muito acerca do Alive para não ficar muito alterada, ficam no entanto estas ideias:
- A organização falhou redondamente: uma demora inaceitável para entrar no recinto no primeiro dia devido a um processo lento e mal pensado de troca dos passes de 3 dias por pulseiras que resultou na revolta dos pobres pagantes que, tendo chegado a horas, perderam vários concertos por estarem retidos na fila para entrar. A organização espacial do festival que foi funcional em edições passadas, mas provou ser impraticável num ano de lotação esgotada. Demasiadas filas para comer, demasiada gente a circular, demasiado tempo para ir de um palco para outro. A saída do recinto após o concerto de Pearl Jam foi angustiante, com 45 mil pessoas a seguirem todas na mesma direcção, uma vez que saída do recinto, só há uma. Aqui a vossa amiga teve um divertido ataque de claustrofobia no meio da multidão e teve de se refugiar à beira de um balcão de cachorros quentes. Very nice.
- Porque andar a espreitar de um palco para outro era complicado, optei por escolher um palco e ficar por ali, e portanto perdi muitos concertos. Ou melhor, só vi mesmo aquilo que me interessava ver. Fui também forçada a tomar algumas escolhas em casos de concertos em simultâneo. Sobre os que ficaram de fora não me poderei prenunciar. Tenho pena de ter perdido Noiserv e Legendary Tiger Man e suas muchachas. Não tenho pena de ter perdido La Roux nem Biffy Clyro. Fiz até questão de estar bem longe.
- Nunca fui particularmente fã de Faith no More mas rendo-me a Mike Patton e parece-me difícil que alguém discorde de que este foi o melhor concerto do festival. Patton dá espectáculo e entrega-se, é divertido e inesperado. Muito acima das minhas expectativas e muito acima da média.
- Gossip foi uma experiência religiosa. A actuação foi no palco secundário a pedido da banda e a multidão encheu a tenda SuperBock, até haver pessoas literalmente penduradas ao tecto. Beth Ditto é toda ela amor. O final do concerto com o combo Heavy Cross + I will always love you foi de uma entrega absoluta e um dos momentos mais marcantes do festival.
- Eu não vi nem ouvi Pearl Jam. Isto porque os fãs de Pearl Jam não me deixaram. A multidão apinhou-se para mostrar a Eddie Vedder que andou a treinar e sabe as letras todas de cor. Eu passei as quase duas horas de concerto a ouvir muita gente a cantar e a saltar à minha volta, mas Pearl Jam, não, não os vi. Os fãs incondicionais vão sempre dizer que foi espectacular e a melhor coisa desde o pão às fatias. A mim pareceu-me um concerto bom, eficaz, bem calculado. Mas não me parece que seja coisa para mudar a vida de ninguém.
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| Eu aprovo disto! |
- Como eu previ, houve cerca de 10 pessoas realmente entusiasmadas com o concerto de Gomez. À minha frente estavam umas pessoas sentadas a jogar às cartas durante o concerto. Alguém gritou "Get Myself Arrested" umas quantas vezes, mas não pegou. A mim soube-me a pouco, e resta-me esperar que cá venham em nome próprio.
- Isto de festivais urbanos cansa como o raio. Festival a sério é pegar na tenda e na trouxa e ir para longe de Lisboa. É claro que para o ano esqueço-me e vou ao Alive outra vez, mas por agora estou muito exaurida.
Curtam Gomez e não se esqueçam de comprar bilhete para Arcade Fire.
17.6.10
Hollywood, uma ideia
Há uns anos atrás tive uma ideia genial para um filme. Infelizmente não me tornei cineasta e não me parece que tal vá acontecer nos tempos próximos. Por isso decidi partilhar a minha ideia com o mundo e esperar que chegue aos ouvidos de alguém com poder executivo.
Este é o meu pitch:
Um filme sobre a vida de Jean-Paul Sartre, livremente baseado na obra A Naúsea, e no papel principal....
wait for it.....
BUSCEMI!
Este é o meu pitch:
Um filme sobre a vida de Jean-Paul Sartre, livremente baseado na obra A Naúsea, e no papel principal....
wait for it.....
BUSCEMI!
11.6.10
Music Video Awards – The TSP Edition - 2ª Parte
E os vencedores:
Se um vídeo é censurado/banido/remetido para a programação de madrugada da MTV é porque, provavelmente, terá dedo deste senhor. O realizador sueco que no currículo conta apenas com uma longa metragem (Spun, 2002) é o homem a quem se liga quando se precisa de um vídeo escandaloso, inesquecivel e controverso. Um interminável rol de títulos poderiam ser referidos para comprovar este traço: Try try try dos Smashing Pumpkins, My favorite game dos Cardigans, Turn the page dos Metallica e o tarantinesco Telephone de Gaga e Beyonce são todos bons exemplos. Mas Akerlund terá sempre de competir consigo mesmo, e dificilmente superará o momento de genialidade ímpar na criação do vídeo de Smack my bitch up dos Prodigy. O problema de Akerlund, a meu ver, é o perigo de fazer vídeos que se sobrepõem à música (por vezes sendo muito extensos, com cortes na musica e dialogo adicional)tornando-a secundária. No fim de contas, um vídeo é um veiculo de promoção. Para além disso ele é amigo da Madonna, e isso não se faz.
Os vídeos de referência são demais para nomear na totalidade, mas tomo a liberdade de destacar alguns. Around the World dos Daft Punk, Music sounds better with you dos Stardust, Like a Rolling Stone dos Rolling Stones, Knifes out dos Radiohead e Let forever be dos Chemical Brothers foram dirigidos pelo francês, e os White Stripes renderam-se e contam com três colaborações com Gondry, entre eles Fell in love with a girl, mais conhecido como “aquele vídeo do lego”.
Medalha de bronze
Spike Jonze
O americano Spike Jonze é mais reconhecido pelo seu trabalho como realizador pelas suas duas colaborações com o argumentista Charlie Kaufman Being John Malkovich e Adaptation e mais recentemente pela sua adaptação ao cinema do conto infantil Where the Wild Things are. No entanto, Jonze foi o homem por trás da câmara em alguns dos vídeos mais memoráveis da década de 90, caracteristicos pela sua simplicidade e originalidade. Associado sempre ao universo indie americano, Jonze fez vídeos para The Breeders, Weezer, R.E.M., Sonic Youth para nomear alguns e conta também com duas colaborações com a “anãzinha islandesa” em It’s so Quiet e It’s in our hands.
Mas Jonze ganha a sua posição no pódio por um vídeo apenas, que será, provavelmente, um dos mais geniais videos da História. Sim, da História. É ele o absolutamente inesquecivel Praise you de Fatboy Slim. O vídeo filmado com qualidade de câmara de telemóvel mostra uma muito mal vestida trupe de dançarinos, que actua em frente a um cinema para os transeuntes com uma coreografia tão tosca como enternecedora. Parece amador, mas não é. Desaprender tudo o que sabemos e regressar à simplicidade total é um feito mais admirável do que pode parecer à primeira vista. Quem viu nunca mais se esqueceu e não consegue deixar de esboçar um sorriso ao rever.
Não tão genial mas igualmente bom foi o vídeo de Weapon of Choice, também para Fatboy Slim. Porque se é preciso alguém para dançar, que seja o Christopher Walken.
Medalha de Ouro
Jonas Akerlund
Se um vídeo é censurado/banido/remetido para a programação de madrugada da MTV é porque, provavelmente, terá dedo deste senhor. O realizador sueco que no currículo conta apenas com uma longa metragem (Spun, 2002) é o homem a quem se liga quando se precisa de um vídeo escandaloso, inesquecivel e controverso. Um interminável rol de títulos poderiam ser referidos para comprovar este traço: Try try try dos Smashing Pumpkins, My favorite game dos Cardigans, Turn the page dos Metallica e o tarantinesco Telephone de Gaga e Beyonce são todos bons exemplos. Mas Akerlund terá sempre de competir consigo mesmo, e dificilmente superará o momento de genialidade ímpar na criação do vídeo de Smack my bitch up dos Prodigy. O problema de Akerlund, a meu ver, é o perigo de fazer vídeos que se sobrepõem à música (por vezes sendo muito extensos, com cortes na musica e dialogo adicional)tornando-a secundária. No fim de contas, um vídeo é um veiculo de promoção. Para além disso ele é amigo da Madonna, e isso não se faz.Platina
Michel Gondry
Espero sinceramente que o meu julgamento não esteja a ser turvado pelos meus gostos pessoais, porque julgo que não há, verdadeiramente, ninguém que supere Gondry na criação de peças que conseguem o equilíbrio perfeito entre a identidade do criador e a identidade do artista, resultando em experiências honestas e emotivas que ao invés de deixar a música para segundo plano potenciam segundas leituras que a enriquecem.
Lembro-me quando me apaixonei por Gondry sem saber quem era Gondry. Corria o ano 1993 de nosso senhor Jesu Cristo, tinha eu uns míseros 7 anos, quando vi pela primeira vez o vídeo de Bjork (mas esta senhora está em todo o lado?) para Human Behavior, e o meu espirito infantil foi conquistado por aquele universo de florestas e conquistas da lua, ursos de peluche que engolem criancinhas (para mim, a Bjork parecia ter a minha idade) e traças de papel que voavam sobre a sopa.
Desde então Gondry nunca me falhou. Os seus universos são surreais e oniricos sem nunca perderem uma qualidade absolutamente táctil e humana. Gondry sabe capturar as aleatoriedades do pensamento inconsciente importando as texturas da realidade que equilibram a estranheza e a verosimilhança.
Os vídeos de referência são demais para nomear na totalidade, mas tomo a liberdade de destacar alguns. Around the World dos Daft Punk, Music sounds better with you dos Stardust, Like a Rolling Stone dos Rolling Stones, Knifes out dos Radiohead e Let forever be dos Chemical Brothers foram dirigidos pelo francês, e os White Stripes renderam-se e contam com três colaborações com Gondry, entre eles Fell in love with a girl, mais conhecido como “aquele vídeo do lego”.Mas será talvez em 1997 que Gondry teve o seu maior feito, conseguindo com um vídeo dar uma nova vida a uma banda cuja carreira e reputação estavam à beira do precipício. Everlong fez com que os Foo Fighters deixassem de ser, aos olhos do público, os restos mortais dos Nirvana e passassem a ser uma banda com identidade própria, bons rapazes com sentido de humor, alguma tendência para o transvestismo e o porreirismo tipico de quem não tem medo de fazer más figuras. A música era boa, mas Gondry ajudou.
No cinema Gondry foi autor de alguns objectos de culto como Eternal Sunshine of the Spotless Mind e The Science of Dreams que são igualmente representativos do que é o imaginário de surrealismos infantis agridoces de Gondry. Be kind/Rewind é mau e não há desculpas, mas a ideia era boa e eu vou encontrar as forças no meu coração para perdoa-lo. Com um currículo assim, quem se recusará a faze-lo?
Eu assumo que muitos nomes ficaram de fora e gostava de ouvir mais opiniões, mas aviso já que escusam de me vir falar do Thriller do Michael jackson. O vídeo é bom e revolucionário, sim. Mas é também a unica coisa relevante da carreira de John Landis, um realizador dos estudios Disney que entre outras parvoices realizou a versão televisiva de Querida, encolhi os miudos. Tá bom?
10.6.10
Music Video Awards - The TSP Edition - 1ª parte-
Para quem gosta de música e de cinema em igual medida um bom videoclip pode ser motivo de real regozijo, em formato “two ein one”. Pelo meio dos incontáveis vídeos de performance e de shameless self promotion surgem por vezes casos que funcionam como verdadeiras curtas metragens musicais que por uma razão ou por outra ficam para sempre gravadas no imaginário de melómanos e de cinéfilos.
Como, salvo as excepções, os vídeos não têm um genérico que identifique o realizador ficam por vezes anónimos os génios por trás da câmara de muitos dos vídeos mais memoráveis da História (atribuir o vídeo às bandas é injusto, na maior parte das vezes não têm nada a ver com o assunto).
Mesmo sabendo que a injustiça é inevitável e que muitos nomes merecedores de menção ficarão de fora, tomei a liberdade de compilar, considerar e premiar alguns dos responsáveis por alguns dos títulos de maior destaque no espólio videomusical dos últimos anos.
Menções Honrosas –
Jonathan Dayton e Valerie Faris
O casal de realizadores oscarizados pelo seu Little Miss Sunshine é responsável por alguns dos vídeos mais interessantes dos anos 90. Tonight, Tonight e 1979 dos Smashing Pumpkins, Freak on a Leash dos Korn, um chorrilho de videos dos Red Hot Chilly Peppers, entre eles Aeroplane e Californication são alguns dos trabalhos mais conhecidos do casal. Soundgarden, Ramones, Oasis, Extreme, R.E.M... Os anos 90 estiveram recheados de vídeos de Dayton/Faris. Mais recentemente o duo dinâmico realizou um vídeo para Britney Spears, mas enfim, todos temos contas para pagar...
Chris Cunningham
O corpo de trabalho de Cunningham não é muito extenso, mas dois dos seus vídeos são dos mais marcantes dos últimos anos: o arrepiante All is full of love da Bjork e Windowlicker de Aphex Twin (que confesso nunca ter visto na integra por me dar uma indisposição desgraçada).
Cunningham assinou também Flex, uma peça de video-art acompanhada de musica de Aphex Twin. Não querendo entrar por questões essencialistas, é curiosa a linha que distingue um videoclip de video-art musical. Um passa na MTV outro passa em galerias de arte? Bom, hoje em dia, tudo passa no YouTube.
Anton Corbijn
A minha simpatia pelo trabalho deste notório fotografo causa-me algum pudor no momento de falar do seu trabalho em videoclips.
Quando pensamos em bandas boas com um longo historial de vídeos cretinos pensamos em Depeche Mode. A culpa? Do Corbjin. Enjoy the Silence? Sim, foi ele.
Realizou também Heart Shaped Box dos Nirvana, que não é propriamente mau, mas seria mesmo adequada tanta bizarria avant garde aos pais do género musical menos teatral das ultimas décadas?
Hype Williams/Joseph Kahn
Não, não estão associados nem são um casal. Ponho-os no mesmo saco por serem os reis dos vídeos de pop e hip-hop. Britneys, Aguileras, gangster rap e hip hop genérico é com eles. Kahn é também culpado (porque a expressão é esta) por muitos vídeos dos Muse, outros pobres desgraçados cujos vídeos nunca estão à altura da música.
Os grandes vencedores no próximo post.
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video kahn faris dayton cunningham corbjin
1.6.10
Carta aberta a Lady Gaga
Querida Lady,
Gostava que soubesses como a minha opinião acerca de ti mudou desde a primeira vez que tomei conhecimento da tua existência até ao momento presente. Lembro-me da primeira vez que vi o vídeo de Poker Face, que visto de esguelha pareceu-me ser a Christina Aguilera mas depois percebi que era outra pessoa, uma loira não tão bonita mas mais.. digamos... interessante. Confesso que não liguei absolutamente nenhuma. Ignorei-te, Gaga, desculpa-me. Tomei-te por uma bimba qualquer do euro-electro-trash em vez de olhar com atenção. Depois comecei a ler o teu nome em todo lado, normalmente numa referência ao facto de estares sempre de cuecas. Também não dei grande importância, uma vez que muitas das tuas colegas celebridades nem roupa interior costumam ter.
Digo deveriam porque, como tu sabes Gaga, o estrelato já não é o que foi em tempos. Neste mundo de Facebooks e Twitters que nos permitem saber cada passo e pensamento dos que conhecemos e dos que não conhecemos, as celebridades abrem as portas das suas casas com uma desconcertante naturalidade. Vemos as suas casas no Cribs. Sabemos dos seus amores, divórcios, corações partidos, traições, dietas e doenças por entrevistas cândidas em talk shows, principalmente no derradeiro confessionário das celebridades, o programa da Oprah Winfrey. Vemos sessões fotográficas sem maquilhagem nem photoshop. Sextapes são “acidentalmente” divulgadas. Vemos reality shows onde podemos acompanhar as suas vidas e perceber, finalmente, que as estrelas são seres humanos, como nós.
Mas não são, como tu, Lady Gaga, sabes muito bem. Foi-te dito que o Prince não vai às compras de fato de treino e percebeste. Uma estrela é sempre uma estrela. Não se liga e desliga quando se quer, não se oscila entre a humanidade corpórea e a divindade etérea do estrelato. A Stefanie não sei das quantas não aparece jamais, é uma coincidência, um corpo que tu, Lady Gaga, ocupaste para levar a cabo a tua missão. Como mais ninguém da tua geração abraçaste o conceito de artista, e mesmo com a parca roupa que usas, não existe qualquer vestígio de sobre-exposição em ti. Não sei quem és, conheço apenas o que escolhes mostrar: uma imagem icónica e memorável, um animal de extremos, uma criatura mítica de obstinação e vontade inquebráveis.
Porque tu és Monroe, Elvis, Bogart e Dean. Sabes que vais ter de morrer jovem e trágica, indecifrável e mítica, eternamente bela e grotescamente sexual. Asfixia auto-erótica talvez? Fica a sugestão.
No fundo o que eu te quero dizer é isto: aprendi a respeitar-te e admirar-te, mas continuo a não conseguir gostar da música que fazes. Tentei ouvir o teu albúm, a sério que tentei, mas é mau demais.
Lady Gaga, um apelo: vêm para o rock. Precisamos de alguém como tu por aqui.
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